Notícia
Culinária Afro-Brasileira: Nutrição e Identidade Cultural
20 de Novembro de 2025
A culinária brasileira carrega em cada prato a força da ancestralidade africana. Muito além do sabor, ela traz histórias de resistência, identidade e pertencimento
Os saberes alimentares vindos da África- especialmente das regiões de Angola, Congo, Nigéria e Benim - moldaram profundamente o que comemos, como cozinhamos e até como celebramos o alimento.
No documentário História da Alimentação no Brasil, dirigido por Eugenio Puppo e baseado na obra de Câmara Cascudo, é possível compreender como os povos africanos foram fundamentais para a formação da nossa mesa.
Durante o período colonial, os povos bantos e iorubás trouxeram não só ingredientes, mas também técnicas e significados para o ato de cozinhar. O uso do azeite de dendê, do feijão-fradinho, da mandioca e do quiabo são legados diretos dessa herança. Pratos como acarajé, vatapá, caruru, angu e feijoada nasceram desse encontro entre culturas, tornando-se símbolos de resistência e expressão da identidade afro-brasileira.
Mais do que receitas, esses alimentos são narrativas vivas de manter a memória e celebrar a espiritualidade presente em cada refeição. Como afirma o antropólogo Raul Lody, “comer é um ato de identidade”. No Brasil, é também um gesto de reconhecimento da herança africana que nos constitui e continua a nos nutrir culturalmente.
Em seu livro "O Povo Brasileiro", Darcy Ribeiro aborda a alimentação como um reflexo da formação cultural do país, destacando a interação entre os hábitos alimentares indígenas, europeus e africanos. Ele descreve o sincretismo alimentar que se desenvolveu, onde o uso de recursos locais e as técnicas de preparo (como o processamento da mandioca) foram essenciais para o surgimento da culinária brasileira, que ele via como resultado da miscigenação, embora em um contexto de desigualdade.
A influência africana na alimentação brasileira vai além: está na base de nossos hábitos, nos temperos, nas panelas de barro, no modo de servir e partilhar a comida. Essa forma de cozinhar coletiva e afetiva é uma herança de valores como solidariedade, comunhão e respeito à natureza - princípios que hoje dialogam com a nutrição sustentável e ancestral.
Sob a ótica da Nutrição, essa sabedoria revela equilíbrio e vitalidade. Ingredientes tradicionais, ricos em fibras, proteínas e gorduras boas - como o azeite de dendê, o quiabo e o feijão-fradinho - demonstram que os povos africanos já praticavam uma alimentação natural, funcional e de baixo impacto ambiental muito antes de esses conceitos ganharem destaque.
A comida como elo de memória e resistência
A culinária brasileira é uma das expressões mais vivas da nossa formação como povo. Em cada tempero, em cada panela de barro, há uma história de travessia, dor e reinvenção. A alimentação africana, trazida pelos povos escravizados de regiões como a África Ocidental (atual Nigéria, Benim, Angola, Congo e Moçambique), não apenas sobreviveu ao processo violento da colonização, mas, se adaptou aos ingredientes disponíveis se tornando a espinha dorsal da cozinha brasileira.
Como diz o antropólogo Raul Lody, em seu livro Santo também come (2004):
Saberes que atravessam o Atlântico
Os povos bantos, vindos sobretudo de Angola e Congo, trouxeram técnicas agrícolas e alimentares baseadas na mandioca, no dendê e no coco. Já os povos iorubás e jejes (regiões do atual Benim e Nigéria) influenciaram profundamente o uso de azeites, feijões e especiarias, além de práticas rituais associadas à comida - especialmente no candomblé e na relação sagrada com o alimento.
Essas influências moldaram pratos icônicos como:
Acarajé: de origem iorubá (Nigéria), do àkàrà (bolinho de feijão-fradinho frito), feito no azeite de dendê.
Vatapá e caruru: misturas de ingredientes africanos e indígenas (como o dendê e o amendoim) com técnicas adaptadas no Brasil.
Feijoada: longe de ser “invenção de escravos com restos”, é herança de caldeiradas africanas e europeias reinterpretadas, símbolo de comunhão e partilha.
Angu e pirão: de origem banto, expressam o uso ancestral de farinhas e mingaus como base da alimentação cotidiana.
Esses pratos representam não apenas sabores, mas formas de resistência cultural - a comida como forma de afirmar humanidade, memória e pertencimento em meio à violência da escravidão.
Nutrição: o alimento como ato político
Celebrar a culinária afro-brasileira é, portanto, reconhecer que Nutrição também é cultura. Cada prato carrega o poder de nutrir corpo, alma e memória, reafirmando que comer, no Brasil, é um ato de resistência!
No Dia da Consciência Negra, refletir sobre o papel da alimentação é uma forma de homenagear as mãos negras que, com criatividade e fé, transformaram escassez em sabor e opressão em identidade. Honrar essa herança é reafirmar que o alimento é também um território de luta, reconhecimento e afirmação da nossa identidade cultural brasileira.
Celebrar a herança africana na alimentação brasileira é também reconhecer o papel da Nutrição como instrumento de dignidade e saúde pública.
Ao valorizar alimentos tradicionais e regionais, muitos dos quais têm origem africana, fortalecemos a soberania alimentar e a valorização da cultura como parte da saúde integral.
Referências



