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Leite Materno: Iniciando a vida com segurança alimentar e nutricional
img 31 jul/2020

Leite Materno: Iniciando a vida com segurança alimentar e nutricional

 

O leite materno é um alimento completo e único. Suas propriedades nutricionais são inquestionáveis no atender as necessidades nutricionais de forma espécie-específico e promover o desenvolvimento fisiológico do ser humano. Sua composição é complexa e se modifica conforme o estágio de lactação, os horários do dia, o início e o fim da mamada e alimentação da lactante, modificando-se em teor, quantidade e qualidade para atender as necessidades específicas daquele lactente, naquele momento1,2.

Além de conter todos os nutrientes, o leite materno é rico em elementos bioativos como fatores de crescimento, enzimas bioativas, hormônios, componentes que agem para conter a resposta inflamatória e até células tronco1,3,4,5. Contém inúmeros componentes imunológicos para estimular a maturação e fortalecer o sistema imune da criança, proporcionando proteção passiva e ativa contra vários patógenos3,5,6. Ajuda a reduzir o risco de doenças infecciosas (respiratórias, diarreias, otites)7,8,9, asma10,, leucemia11, obesidade12,13 e outras doenças crônicas não transmissíveis ao longo da vida7,8, previne cáries dentárias e má oclusão14 e contribui para a formação de bons hábitos alimentares15.

O leite materno também tem papel fundamental na promoção da maturidade intestinal e o estabelecimento e manutenção de uma microbiota saudável. Possui bactérias benéficas, bifidobactérias e enterobactérias que podem reduzir a colonização intestinal por bactérias patogênicas; e fornece mediadores protetores reduzindo os riscos de doenças infecciosas e inflamatórias, podendo ser caracterizado como um alimento probiótico ou mesmo simbiótico1,3,16,17,18,19.

Componentes individuais do leite materno podem ainda fornecer apoio à função neurocognitiva18 e afetar diretamente a programação epigenética da criança, podendo prevenir o efeito adverso de polimorfismos do receptor ativado por proliferadores de peroxissoma γ sobre a adiposidade e o metabolismo, influenciando a composição corporal e reduzindo o risco de obesidade na vida adulta8,20.  

Os benefícios do leite materno vão além dos relacionados à saúde do receptor e da produtora. Outro importante ganho, em longo prazo, é elevar o capital humano mediante a melhora na inteligência, produtividade e renda na vida adulta. Estudo realizado por VICTORA et al.21, observaram que indivíduos amamentados por 12 meses ou mais possuíam escores de QI mais altos, melhor nível educacional e maiores rendimentos mensais, sendo o QI responsável por 72% do maior rendimento. Assim, pode ajudar a diminuir a distância entre ricos e pobres contribuindo indiretamente para uma sociedade como menos desigualdades sociais e com mais saúde física, emocional e social8,22. Além disso, o leite humano por ser um recurso natural e renovável, que contribui para a preservação do meio ambiente23.  

Iniciativas para promover a amamentação podem ser custo-efetivas na redução da morbimortalidade infantil24,25 gerando ainda vantagens econômicas para a sociedade, tanto por prevenir mortes prematuras quanto pelas economias geradas pela prevenção de doenças. Estima-se que o aleitamento materno em níveis ótimos possa reduzir de 12 a 13% das mortes em menores de cinco anos, salvando mais de 800.000 crianças e 20.000 mulheres, anualmente, no mundo8,24,26,27.  Isto reduz os custos de oportunidade e otimiza os escassos recursos destinados ao setor saúde.

Portanto, a amamentação tem efeitos positivos a curto, médio e longo prazo, atingem populações de alta, média e baixa renda e se estendem aos lactentes, às mulheres lactantes, à sociedade, aos sistemas de saúde e ao planeta.

REFERÊNCIAS

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13.    Horta BL, Loret de Mola C, Victora CG.  Long-term consequences of breastfeeding on cholesterol, obesity, systolic blood pressure, and type-2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Acta Pediatr 2015;104 (Suppl. 467):30–7

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27.    Sankar MJ, Sinha B, Chowdhury R, Bhandari N, Taneia S, Martines J, Bahl R. Optimal breastfeeding practices and infant and child mortality: a systematic review and meta-analysis. Acta Pediatr. 2015; 104 (3): 3-13

Por Osvaldinete Lopes de Oliveira, Nutricionista e Conselheira do CRN-3