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Aspectos emocionais: alimentação x Covid-19
img 16 jul/2020

Aspectos emocionais: alimentação x Covid-19

 

Muitas doenças tem como origem o tabagismo, atividade física insuficiente e uso nocivo do álcool. No caso da alimentação inadequada, é considerada o maior fator de risco modificável para a saúde no Brasil e no mundo. Por outro lado, a alimentação é um dos relacionamentos mais perenes da vida.

Em tempos de pandemia, é possível ouvir muitas pessoas se queixarem do ganho de peso, do descontrole alimentar. Deste modo, para entender melhor o que está acontecendo é preciso resgatar duas funções básicas da alimentação em nossas vidas:

1) Garantir a quantidade de nutrientes necessários à sobrevivência; o que chamamos de fome hipotalâmica ou o que você possa ter ouvido popularmente ou de seus ancestrais como “saco vazio não para de pé”, nos alimentamos para ter energia. Neste sentido, excetuando-se condições clínicas, uma pessoa não engordaria;

2) Obtenção de prazer a partir do ato de comer (produção de serotonina e dopamina), ou fome hedônica. Sim, a alimentação é um prazer na vida das pessoas e fome hedônica pode superar a hipotalâmica. Se apenas fossemos guiados pela fome hipotalâmica, a alimentação poderia parecer algo obrigatório, mais uma tarefa, dentre tantas a ser cumprida para a sobrevivência e, em um contexto capitalista, para continuar produzindo.

Dentro de um modelo mais biomédico de fragmentação do ser humano, de desumanização do comer, de um excesso de especialização, o olhar é voltado não mais para o alimento, a refeição, mas os nutrientes, rotulando então os alimentos, como bons ou ruins, criando uma serie de julgamentos, restrições, que impulsionam ao comer justamente aqueles alimentos que, especialmente em um momento de pandemia não auxiliariam a manutenção da saúde e o incremento da imunidade.

A alimentação ocupa muitos espaços na vida das pessoas, é aconchego, carinho, partilha, família; é recheada de significados, de memórias afetivas.

Vivendo uma época de incertezas, um isolamento social necessário, mas para o qual não fomos consultados, apenas tivemos que acatar; natural emergir mais ansiedade, estresse. Com tantas limitações, restrições no dia a dia, o alimento, sempre disponível e companheiro de toda a vida, emerge buscando trazer algum prazer, na tentativa de aplacar um pouco este estado emocional alterado. O alimento é mais que combustível, passa muitas vezes a ser o anestésico, para não sentir, pois por mais nível de educação cognitiva que se tenha, a educação emocional foi pouco estimulada. Não fomos muito ensinados a sentir, a demonstrar nossas necessidades, sentimentos e aí procuramos fugir e nesta fuga encontramos o alimento, que desde sempre nos acompanha. 

É importante relembrar que, diante de situações estressantes, 70% das pessoas alteram a qualidade e ou quantidade da alimentação e, se o relacionamento com a comida não é transtornado (tomada de medidas que podem prejudicar a saúde do corpo, como tomar medicamentos para controle de peso, laxantes, praticar exercícios em excesso sem acompanhamento profissional, pular refeições ou ficar sem comer e se tornar obcecada em contar as calorias de tudo o que ingere), ao longo do tempo vem a auto regulação, ou seja, pode-se ganhar peso inicialmente, mas depois ele volta ao patamar anterior. Este é um péssimo momento para fazer dieta restritiva, especialmente em relação a carboidratos, pois agravaria ainda mais o estresse, a ansiedade e depressão, já que influenciaria negativamente a produção de serotonina, um neurotransmissor responsável dentre outros, pela regulação do apetite, do sono, humor, etc.

Do ponto de vista fisiológico, à medida que as pessoas se mantém estressadas, ao longo do tempo, elas apresentam privação do sono, buscam fazer dieta restritiva, o cortisol, o hormônio do estresse, pode elevar-se e assim, aumentar a vontade de alimentos doces, gordurosos e salgados. Açúcar, gordura e sal ativam o circuito de recompensa do cérebro, sobrepondo-se ao córtex pré-frontal que governa as funções cognitivas e autocontrole. Por este motivo quando você tem um dia difícil, estressante, desafiador, pode surgir a vontade comer um doce, um bolo, um salgadinho, mas não um prato de salada ou uma fruta por exemplo.

A dieta ocidental apresenta excesso de gordura e açúcar e alto consumo de alimentos ultraprocessados; tornando-se assim pobre em frutas e verduras (fibras) e levando muitas vezes a alteração da relação sódio/potássio que contribui com a saúde cardiovascular.

Alimentos, apesar de não serem remédios, a partir de uma alimentação mais natural podem ajudar a diminuir a probabilidade de sofrer de ansiedade e a depressão, tão comum dentre aqueles que possuem o estado nutricional alterado. 

Diferentes medidas poderiam ser tomadas no sentido de proteger a saúde física e mental, desde pequenas mudanças de hábitos no nosso consumo alimentar no dia a dia, introduzindo alimentos frescos, ricos em vitaminas, minerais e antioxidantes, o que naturalmente já aumentaria a imunidade, promoveria maior saciedade do gosto e agregaria menos calorias ao dia a dia, até a instituição de políticas públicas como por exemplo reduzir os benefícios fiscais para indústria de bebidas adoçadas, aumentar as taxas de produtos com excesso de gordura e sal, etc.

Que possamos como diria Hipócrates, “fazer do alimento nosso medicamento, a fim de não precisarmos tomar medicamento como comida!”

 

Por Vera Salvo, Nutricionista e Conselheira do CRN-3.