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Alimentação do idoso: cuidados e aprendizados
img 30 set/2020

Alimentação do idoso: cuidados e aprendizados

Minha apreciação no cuidado nutricional, a esse público tão adorado por muitos, nem tanto por alguns, se deu há tempos, desde os tempos de faculdade. Sempre tive nos mais experientes o respeito e, pelas histórias que contavam sobre a vida, fui absorvendo os contos e admirando cada evento relatado. Especial atenção dava quando as “tias e avós” utilizavam alimentos, receitas, infusões com plantas, uso terapêutico das frutas e assim por diante.

 

Um fato foi marcante, quando uma “tia avó – vó Lúcia”, já próxima dos seus 100 anos (viveu até 107 anos), me respondeu com toda sua simplicidade e sabedoria, a uma insistência minha para que comesse mais um pouco a refeição deliciosa que uma das filhas havia preparado para o almoço. “Estou satisfeita, meu filho, pois, pelo que trabalhei hoje, o que comi, já basta”. Essa sabedoria de uma pessoa que viveu por décadas num sítio, sozinha por longos anos, me faz repensar e refletir o que de fato devemos recomendar para nossos queridos anciãos.

O mundo está envelhecendo e países europeus são considerados envelhecidos, pois muitos deles ultrapassam 14% da população de idosos. Dados do Ministério da Saúde apontam que, desde 2016, o Brasil tinha a quinta maior população de idosos no mundo.

A população idosa no Brasil vai dobrar até 2040 e antes de 2050 os idosos serão um grupo maior do que a parcela da população com idade entre 40 e 59 anos.

Diante desse panorama, cabe destacar alguns pontos importantes no quesito alimentação do idoso. Estudos nacionais que apontam informações sobre a saúde da população idosa revelam elevada prevalência de doenças crônicas, podendo sendo algumas delas estarem relacionadas com estilo de vida e alimentação: diabetes, doenças cardiovasculares, câncer.

Boa parte dos idosos tem certa noção do que faz bem ou faz mal à saúde no quesito alimentação. Relatos dos longevos familiares (tias e tios com mais de 80, 90 anos), de idosos que ainda estudam (frequentam os ambientes universitários) e de outros entrevistados em pesquisas acadêmicas é possível destacar a realização de 3 a 4 refeições diárias, com frequência de alimentos vegetais (frutas, uma ou duas porções diárias e salada no almoço é “o prato principal” para muitos). O café é o item alimentar mais citado na maioria dos inquéritos realizados em nosso meio e o lanche vespertino aparece com frequência em substituição ao jantar tradicional, principalmente dentre aqueles com idades mais avançadas (acima de 75 anos).

Apesar dessa boa noção é necessária a atenção aos grupos de alimentos presentes nos cardápios diários bem como a quantidade deles.

Recentes pesquisas e divulgações científicas têm dado atenção ao consumo de alimentos fonte de proteínas. Esse nutriente é fundamental na manutenção da massa magra, compreendida em sua maior parte pelos músculos corporais. Há no idoso uma resistência anabólica o que dificulta, em certa parte, o aproveitamento total das proteínas ingeridas. Com o fracionamento das porções de alimentos fonte de proteínas ao longo do dia (por exemplo, desjejum, almoço e jantar) é possível manter um nível constante de proteínas para serem utilizadas ao longo do dia e vencer essa resistência anabólica. De forma prática, recomenda-se nessas três grandes refeições de 25g a 30g de proteínas.

Alimentos de origem animal oferecem um perfil de aminoácidos que melhor são utilizados pelo organismo. Os ovos são excelente fonte proteica e são mais acessíveis. Cabe destacar que as preparações devem ser de acordo com a tolerância gástrica e digestiva do idoso, pois muitos referem dificuldade na mastigação e na digestão de alimentos cárneos (bovina, suína e de aves); a habilidade e a criatividade na técnica dietética são atributos fundamentais na preparação das receitas, certo? Entretanto, cabe destacar a grande contribuição das leguminosas na refeição diária pela sua quantidade de proteínas; soja e feijões em combinação com cereais fornecem perfil de aminoácidos semelhante aos alimentos de origem animal, portanto devem fazer parte do cardápio diário (além de serem de custo menor em comparação às carnes).

A ingestão de alimentos de origem vegetal, como já mencionado, é frequente. Importante ressaltar que devem ser consumidas diariamente em porções distribuídas ao longo do dia. Frutas nos lanches intermediários ou mesmo como sobremesa devem constar nos cardápios; hortaliças (verduras e legumes) devem estar presentes no almoço e no jantar. Vale a máxima “variedade de vegetais com cores diferentes, variedade de nutrientes”. Esses alimentos são ricos em fibras que promovem o bom funcionamento intestinal, além de fornecerem grande quantidade de nutrientes e compostos bioativos que atuam como antioxidantes, fundamentais para manterem distantes as ações dos radicais livres sobre o organismo, que aceleram o processo de envelhecimento.

Outro componente essencial à saúde do idoso é a ingestão hídrica. Com o passar dos anos, há naturalmente uma queda na eficiência muscular em decorrência da redução do volume muscular. Esse fenômeno diminui o estímulo da sede e com menor ingestão hídrica essa redução se acentua cada vez mais, e rapidamente. O uso de medicações (diuréticos, por exemplo) podem também contribuir para uma queda no volume de água corpórea. Assim, a eliminação de resíduos indesejáveis, tanto pela urina quanto pelas fezes, pode não ocorrer de forma adequada e, ao se acumularem, podem favorecer os danos celulares causados por radicais livres, ácidos orgânicos, metabólitos sem função orgânica... Portanto, estimular o idoso a ingerir água ou líquidos na forma de sucos naturais (ricos em água e fornecem vitaminas e minerais) como também infusões de ervas naturais, devem fazer parte das recomendações diárias.

E, com a execução de movimentos físicos de força e de resistência, além de proporcionar a manutenção da massa muscular, evita a atrofia do desuso, confere ao idoso a liberdade para realizar as tarefas domésticas e convívio social, mantendo-se útil e produtivo.

São recomendações simples, mas que podem contribuir muito para que os idosos possam seguir suas vidas, como exemplos a serem seguidos, com muita saúde, alegria, independência e paz.

 

Por Cezar Azevedo, Nutricionista